Nunca sei como agir. Em meu ponto de vista, os flanelinhas não me prestam serviço algum. Na maior parte das vezes, prestam-me um desserviço: incomodam, ficam atrás do carro (fingindo que ajudam), com risco de serem até mesmo atropelados, agridem verbalmente, podem riscar meu carro. Se dissermos: “Não, obrigada, não precisa vigiar”, corremos o risco de, ao voltarmos, encontrar nosso carro com um enorme risco ou com o pneu furado.
E se dissermos “sim, pode vigiar”, o que farão se estiverem roubando nosso carro? Sairão correndo para nos avisar? Avisarão a polícia? Enfrentarão o ladrão? Poupem-me.
No estacionamento do Conjunto Nacional, estacionamento público, diga-se de passagem, os flanelinhas ameaçam aqueles que param lá diariamente e não querem contribuir. Tenho uma amiga que trabalhava lá e que, certo dia, por nunca contribuir, foi ameaçada. Segundo ela, o guardador entrou na frente do carro e disse que se ela parasse naquela vaga, seu carro seria danificado. Minha amiga pôs o carro na garagem.
Sim, eu já fui auxiliada por um flanelinha. Quando tinha um Fusca, muitas vezes trancava a chave lá dentro. Então, recorria a eles para abrirem a porta para mim. Faziam isso com extrema facilidade, claro! E, obviamente, um dia meu carro foi arrombado de verdade e roubado.
Psicologicamente falando, diante de nossa sociedade católica, religião em que, infelizmente, fui criada, sou atacada pela culpa quando não contribuo. Para mim, decididamente essas pessoas não trabalham. Pedem esmola. Devemos dar essa esmola? Já existiu (ou existe) uma campanha que dizia (diz): “Não dê esmola. Dê cidadania.” Acontece que exercer essa cidadania nos fará ter o carro estragado.
Realmente fico sem saber o que fazer no momento de dar ou não o dinheiro a essas pessoas. Muitas vezes, tenho as moedas. Detesto mentir. O que dizer? Ou o que fazer, enquanto aquele sujeito está ali do lado olhando para você, como se você tivesse a obrigação de pagar por um desserviço que não quer comprar, pronto para soltar palavrões se você não contribuir?
Como explicar para aquela pessoa que estou desempregada há cinco meses e que qualquer cinquenta centavos faz, sim, falta para mim. Bem, ele deve estar em uma situação bem pior que a minha. Então, isso não vai fazer o menor sentido para ele. Até porque tenho um carro e ele, muito provavelmente, não. Pouco importa para ele como comprei esse carro, o quanto foi difícil conseguir o dinheiro e, pior, que ainda estou pagando pelo básico Uno Mille.
Se essas pessoas não estivessem nas ruas, onde será que estariam? Desempregadas, roubando? A maior parte delas é saudável, forte, com total condições de trabalhar. Será que, se lhes forem oferecidas vagas de trabalho, elas vão querer?
E, para completar, por que o governo não faz nada? Por que o cidadão convive com isso sem nada dizer? Culpa? Medo? Infelizmente, o Brasil tem a política do “coitadinho” e todo “coitadinho” tem direito perante a Justiça e a sociedade. E ninguém diz e nem faz nada. Será que os flanelinhas incomodam somente a mim? Gostaria, mesmo, que o governo parasse de fechar os olhos e tomasse alguma providência.
